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Bartolomeu Campos de Queirós, escritor

“Quando leio os textos que as crianças escrevem sobre suas proposições, surpreendo-me com a vocação que elas têm para viver em felicidade.... Louvo toda proposta que convida as crianças a registrarem o que Somos e Queremos.” Bartolomeu Campos de Queirós, escritor e crítico de arte, mora em Belo Horizonte.

Por ser criança
Bartolomeu Campos de Queirós

Por ser ainda criança, também seu olhar é jovem. E por ser criança, ela tem a fantasia como instrumento para explicar o mundo. E com desmedo da liberdade, guiada pela espontaneidade, ela invade tudo que seu olhar alcança sem duvidar de seu entendimento. A fantasia é sua verdade. Mas não será fácil ser criança. O mundo é muito vasto e a vida, muito pequena. Há ilimitadas coisas para suspeitar e muitas para adivinhar. As cores trocam de nuances, as nuvens se movem sempre, os sons trocam de tons, o dia se faz noite, as estrelas dormem com a luz do sol, as chuvas caem do nada, a curiosidade pela língua dos animais, o trajeto incontrolável do tempo e o vazio vão até o muito longe.

E o mais difícil em ser criança é desentender o porquê da dor, desconhecer onde a boca busca o sorriso, porque a lágrima é de sal, não saber o percurso do mundo, onde vivia o sonho antes de ser sonhado, e quem deu nome a todas as coisas. E o mais impossível acontece quando ela se pergunta, em silêncio, “por que eu sou eu e o outro é o outro”, e o espelho permanece mudo. Sem a posse das palavras, mais penoso se torna escutar o mundo que sai de nossa boca, já adulta e fatigada. Daí as crianças serem tão felizes entre elas sem escutar o nosso “não” para interditar seus desejos.

Sim. Também não é tarefa simples a nossa, pessoas vaidosas de já possuir muito tempo e grávidas de tanto saber: reconhecer as sombrias dúvidas que inauguram a infância. Dúvidas que jamais serão respondidas, pois atrás de cada descoberta nasce um outro mistério. Seremos sempre analfabetos diante dos tantos segredos que o universo camufla. Há sempre um outro mundo depois do mundo. Mas cismamos em determinar o caminho para ser por elas seguido, sem reconhecer que elas pensam, investem, contemplam e poderão traçá-lo.

E assim, aos poucos, a criança fica mais longe do nó inicial e se adentra vida afora. Sem pressa, ela vai revelando o mundo dos seus conflitos. Inconformada com a longa distância existente entre o real e a fantasia, ela anseia ter espaço para dar corpo à sua idéia de mundo.

Quando leio os textos que as crianças escrevem sobre suas proposições, surpreendo-me com a vocação que elas têm para viver em felicidade. Assusto-me ao perceber seus desencantos com o destino escolhido pela humanidade. Sem reconhecer a nossa fraternidade, nos isolamos em guerras, em fomes, em injustiças, em castas. As diferenças rejeitadas; e a democracia ditada pelo mais rico e mais armado. E, sem reconhecer que os braços foram feitos para os abraços, nos recolhemos em solidão, como se a existência nos fosse dada para vivê-la sob o medo.

E como os textos das crianças nos rejuvenescem pelo que há neles de esperança, de solidariedade, de confiança na possibilidade de um lugar mais humano para nos abrigarmos com mais dignidade! Seus sonhos são escritos em ordem direta, sem rodeios, para falar da branca paz, do vermelho amor, do horizonte da poesia.

Não sei se as crianças, ao crescerem, invejarão o caminho já pisado por nós. Suponho que nossa maneira de exercer o poder as faça buscar outras passagens. Para elas, imagino, todas as mudanças serão operadas, um dia, por meio de uma fada que vai descer das nuvens, por uma estrela que brilhará na luz do dia, por um pássaro que vai nos emprestar suas asas para a liberdade. Como as crianças ignoram nossa validade! Nossa palavra não corresponde ao que vivemos.

E como as crianças nos ensinam lições simples para um mundo melhor! Elas encontram soluções nas asas de uma borboleta, no trabalho das abelhas, na comunidade das formigas, nos desenhos das areias, na grandeza do baixo nível do mar pronto para amparar todas as águas. E mais, se preocupam com as feridas das serras nas matas, com uma ave sem ninho, com um rio que seca, com um lixo que se acumula, com o sujo ar que nos invade. Sofrem pelo outro que poderia ser elas.

Meu desejo, ao ler os textos dos mais jovens, é de aprender com eles que é possível dar um melhor gosto ao mundo tendo a sensibilidade como nossa estrela guia. Levantar em cada manhã disposto a inventar um novo dia. Decorar com eles, no livro do mundo, que a nossa marca de passagem pode ser bela como é o milagre do nascimento. Vontade de trocar com elas o meu vivido pelo que elas têm por viver. Susto por não viver o planeta que elas vão refazer usando a vitalidade que caracteriza a infância.

Ler nas letras dos jovens o ímpeto pelas mudanças, encontrado nos pequenos objetos do seu entorno, é alimentar-se de esperança. Mais que nunca, é necessário abrir passagem para que os mais jovens reinventem nosso planeta. Por ser assim, louvo toda proposta que convida as crianças a registrarem o que “Somos e Queremos”.

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