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Por dentro da mata

Mateiro é aquele que entende de mato. Conheça as histórias de Marcos, Roberto e Sandro, os mateiros do Parque das Neblinas

Marcos, Roberto e Sandro são mateiros que trabalham como monitores nas trilhas do Parque das Neblinas. Mateiro, como bem sugere a palavra, é aquele que entende de mato. Só que, antes de se tornar monitor, cada um deles tinha uma vida bem diferente.

Sandro Custódio, de 34 anos, morava em São Paulo e alimentava o sonho de poder morar perto do verde. Hoje se considera realizado, pois mora com a esposa e os filhos próximo à sede do Parque. mateiros_sandroAté isso acontecer, ele admite seu passado de caçador: fazia muitos acampamentos com amigos para caçar paca, tatu, veado, cotia... Ele diz que já viu onça-parda e onça-pintada na região. “Os antigos ensinavam a caçar de forma sustentada, e nós aprendíamos e respeitávamos a época de cria de cada animal. O caçador consciente não caça depois da chamada ‘época de pio’, que é de outubro em diante”, diz Sandro. Em 2004, ele participou da Oficina de Planejamento Participativo do Plano de Manejo do Parque das Neblinas e começou a cooperar no mapeamento das áreas até ser convidado a fazer parte do grupo de monitores. Hoje, ele utiliza as malícias de caçador para localizar árvores frutíferas e guiar pesquisadores e visitantes para os melhores pontos do Parque.

Roberto Ventura, de 40 anos, veio do Rio de Janeiro em 1978 para trabalhar na Fazenda Pedra Branca como cortador de eucalipto. “Havia poucas famílias naquela época, mas logo o povoado foi crescendo. Onde hoje é o Centro de Visitantes do Parque funcionava uma escola, e as pessoas eram transportadas em caminhões-contêineres, cada um com 90 pessoas. mateiros_robertoA gente ia jogando baralho até chegar ao local de trabalho”, lembra Roberto. Ele trabalhou como operador de máquinas até 1998, quando se desligou da empresa. “Mesmo assim, eu voltava sempre à região para caçar”, diz ele, que conhece tudo ali como a palma da mão. “Raras vezes me perdi. Quando acontecia isso, eu sentava para pensar, analisar, refrescar as idéias. Não andava com bússola, não; minha bússola era galho quebrado”. Hoje, como monitor, do que Roberto mais gosta é a união dos grupos que visitam o Parque.

Marcos José Rodrigues Prado, de 24 anos, é ex-palmiteiro e ex-caçador. Com isso, aprendeu a conhecer a mata e alguns de seus segredos. Quando era palmiteiro, chegava a tirar 150 palmitos por dia em uma caminhada média de cinco horas. O trabalho era duro, e as metas, inflexíveis: para completar dez potes de palmito, era preciso cortar até 250 palmeiras jovens, conhecidas como “bodões”. “A gente não tinha consciência na época e achava que tudo o que existia na mata não acabava”, afirma Marcos. Muita coisa mudou depois que começou a participar, a convite de um dos monitores, do manejo da palmeira-juçara no Parque.

mateiros_parqueQuem ama cuida

Sandro, Roberto e Marcos sempre compartilharam o amor pela mata. O que mudou é a forma como se relacionam com a floresta, fruto do acesso à informação, da oportunidade e da vivência cotidiana de uma relação de cuidado com o ambiente que os cerca. Pode-se ver o contentamento dessa conquista no brilho dos olhos e no orgulho com que contam suas peripécias como monitores cuidadores. Roberto, Marcos e Sandro sabem conquistar a atenção de uma platéia e sabem que uma boa conversa com eles, enquanto se faz uma caminhada pelas trilhas do Parque é uma aventura pedagógica.